terça-feira, 4 de outubro de 2011

A SALVAÇÃO É PARA TODOS!

Jesus corrobora através de sua práxis as atitudes de alteridade e gratuidade. Nas coisas ordinárias da cotidianidade Ele vai revelando o rosto de Deus, e mostrando que o Reino é para todos. Não interessa se é judeu, pagão, ligado ao império, pobre, rico, pecador, homem, mulher, etc... “Jesus é o bondoso médico que ajuda os homens, um benfeitor divino que traz a Deus para perto dos homens por sua misericórdia diante das necessidades corporais e espirituais, é pessoalmente um homem com quem está Deus”
Na sequência serão destacados alguns casos que configuram à opção de Jesus pela alteridade e pela gratuidade, como remédio para os desafios latentes de seus contexto. Jesus ressuscita o jovem filho da viúva de Naim, mostra-se compadecido com a mãe atribulada, que está levando para a sepultura o seu filho único (cf. Lc 7,13). A parábola do bom samaritano (cf. 10,30-37) resgata a vida do peregrino que foi assaltado. A parábola do filho pródigo (cf. 15,11-32) dá a liberdade ao filho, no retorno acolhe-o, e chama a atenção do filho mais velho que ciumou-se. Na parábola do homem rico e o pobre Lázaro, foi o pobre quem ganhou a recompensa (cf. 16,19-31).  
A atenção de Lucas para com as mulheres, mostra a bondade de Jesus para com elas, como a mulher mal afamada que lhe unge os pés durante um banquete (cf. Lc 7,36-50). Jesus tolera as mulheres no seu séquito e deixa-se amparar por elas (cf. Lc 8,1-3), visita Maria e Marta (cf. Lc 10,38-42) e fala com as mulheres que se lamentam no caminho da cruz (cf. Lc 23,27-31). Ressalta nominalmente as mulheres sob a cruz e no sepulcro (cf. 23,55; 24,10). “Traça também com carinho as mulheres na história da infância, sobretudo Maria, a mãe de Jesus, mas da mesma forma Isabel e a profetisa Ana (visita de Maria a Isabel – Lc 1,39-56; Maria considera as coisas no seu coração – Lc 2,19.51; Ana – Lc 2,36ss)”.
O capítulo 15 de Lucas contém “... três parábolas sobre a salvação do perdido, é exterior e interiormente a parte central do evangelho de Lucas, é o evangelho dentro do evangelho” Mesmo estando pregado na cruz, Jesus assegura ao ladrão arrependido à sua direita a salvação, a próxima entrada no paraíso celeste (cf. Lc 23,43).
Há ainda outras particularidades da exposição de Lucas que reforçam a impressão do humanismo daquele médico divino. Dele faz parte o espírito social do terceiro evangelista, o único que ressaltou a ideia da pobreza na mensagem de Jesus. Jesus exige que não se convide somente parentes e vizinhos ricos, mas justamente pobres e aleijados, coxos e cegos (cf. Lc 14,12ss), e a mesma turma de infelizes é convidada na parábola do grande banquete (cf. Lc 14,21). A vista cai sempre de novo sobre a beneficência: dar empréstimo, sem esperar nada de volta (cf. Lc 6,34ss); fazer amigos mediante as riquezas injustas (cf. Lc 16,9); dar aos pobres a metade dos bens (cf. Lc 19,8) ou até desfazer-se de todas as posses para ser discípulo de Jesus ( cf. Lc 14,33).
“Além disso, perpassa todo o evangelho de Lucas uma cálida piedade de coração. A oração de Jesus é frequentemente ressaltada, um traço que Lucas mesmo assinalou...”: pode ser encontrada no batismo de Jesus (cf. Lc 3,21), antes da eleição dos apóstolos (cf. Lc 6,12), antes da pergunta feita aos discípulos junto a Cesaréia de Filipe (cf. Lc 9,8), antes da transfiguração no monte (cf. Lc 9,28) e antes de ensinar aos discípulos como deviam rezar (cf. Lc 11,1).
Jesus rezou por Simão Pedro para que não perdesse a fé (cf. Lc 22,31ss); já na cruz reza ainda por seus inimigos (cf. Lc 23,24), e sua última palavra é um confiante verso do salmo (cf. Lc 23,46). “Lucas foi bem sucedido em reunir da tradição muitas peças e recompô-las de tal forma que Jesus deve aparecer a seus leitores [...] atraente, mas também como exemplo digno de imitar...”. Na tentação como no sofrimento, em sua atitude perante Deus como em sua bondade para com os homens, culminando no amor aos inimigos. Ele fica sendo o condutor para a vida, que abre e prepara o caminho para a salvação, mas é ao mesmo tempo o exemplo humano a quem se pode seguir.
Alegria e júbilo de salvação pervadem a sua exposição desde o anúncio do nascimento de João (cf. Lc 1,14), através da mensagem natalina (cf. Lc 2,10.14), das bem-aventuranças (cf. Lc 6,23), do brado de júbilo após a volta dos discípulos que tinham sido enviados (cf. Lc 10,17.21), da satisfação de Deus sobre a conversão dos pecadores  (cf. Lc 15,5.7.10.32), grande prontidão missionária (cf. Lc 15,3).
Zaqueu apresenta um caso peculiar da postura de Jesus: era rico chefe dos publicanos (cf. Lc 19,1ss), mas havia um desejo autêntico de conversão em seu coração. “... Polariza em sua pessoa todas as iras da sociedade israelita, uma vez que se tinha enriquecido à custa da miséria do povo submetido. Por isso se realça que era baixo de estatura...”. Estas duas qualidades: chefe dos cobradores de impostos e rico tornava o caso de Zaqueu quase impossível.
Deus é sutil em seus designíos, impelido por curiosidade ou desejo de conversão, de antemão não dá para defini-los, a verdade é que Zaqueu esforça-se para encontrar Jesus. Consciente de sua realidade, de sua condição de pecador, procura subir numa árvore “... para ver Jesus, superando todo complexo de dignidade e prestígio, já está a caminho da salvação”
Curiosidade e humildade foram as virtudes que aproximaram Zaqueu de Jesus. Na perícope, Jesus antecede-se a qualquer manifestação de Zaqueu, mandando-lhe descer da árvore, ele desce depressa, e em seguida o Messias se auto-convida para ir à sua casa. “Pela primeira vez Zaqueu se sente valorizado como homem”. Descer faz parte do processo pedagógico de conversão, estar no alto, olhando de cima, pressupõe superioridade, arrogância; Jesus rompe com todas as barreiras, põe-se diante do ser humano com uma postura de igualdade, de horizontalidade, olha nos olhos, e o resgata oferecendo-lhe uma nova vida a partir de sua história, ou seja, de sua casa.
Ao sentir-se impelido pelo Senhor Zaqueu exorta: “Senhor, eis que dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo” (cf. Lc 19,8). Assim, “Zaqueu está reconhecendo que era um ladrão público”, e aceita devolver aos pobres.
O que sobra para Zaqueu depois de praticar a justiça? Sobra a pobreza e a salvação. “Deus não se desmente; ele permanece fiel à promessa de salvação feita em favor dos filhos de Abraão, a todos os que, como Abraão, na fé abrem à justiça fiel de Deus”. O convite de Jesus para os ricos é este: praticar a justiça e tornar-se pobre.
Após a declaração de Zaqueu, Jesus exclama: “Hoje a salvação entrou nesta casa” (cf. Lc 19,9). Nesta afirmação Lucas demonstra a solidariedade de Jesus para com os pecadores, a alegria da salvação é para todos os que estão na planície, ou melhor, para a multidão.

Rodrigo J. da Silva

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A universalidade da missão de Jesus

Ao ler o Evangelho de Lucas são perceptíveis os desafios que emergem no contexto da Igreja atual. Dentre eles, gostaria de destacar o referente à universalização da mensagem, ou seja, a catolicidade da missão. A universalidade é fruto do protagonismo do Espírito Santo na obra do apóstolo.  Jesus deixa claro desde o início, que a salvação de Deus não se reduz ao Povo de Israel.
Seu ministério se caracteriza por muitas caminhadas, visitas, ensinamentos, curas. É neste bloco, sobretudo, que Lucas quer cumprir um dos objetivos do seu Evangelho: revelar quem é Jesus de Nazaré e qual a sua proposta. Lucas como companheiro de viagem de Paulo, incute em seus inscritos a mesma universalidade abordada pelo companheiro de missão. “Não há judeu nem grego, não escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (cf. Gl 3,28).
A salvação é uma possibilidade para todos, direito de todos, e Jesus demonstra isso através de sua práxis. Rompe com todos os sectarismos: puro e impuro, pobre e rico, homem e mulher, judeu e pagão. Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, revela que o amor está acima da lei.
Para corroborar a universalização do Evangelho, será abordada em relances a postura de Jesus lucano diante da alteridade. Com isso, dá para fazer um paralelo com a postura da Igreja atual diante dos desafios  vigentes, como o relativismo ético, a pluralidade, a inculturação, a pastoral urbana, hedonismo, etc...
O universalismo do Jesus lucano é assinalado antes de sua vida pública, ou seja, da sua missão. "Luz para iluminar as nações” (cf. Lc 2,32), e assim como está no livro do profeta Isaías: “toda carne verá a salvação” (cf. Lc 3,6). “... A ação de Jesus virá trazer a salvação de Deus, superará barreiras, transporá fronteiras, romperá limites”. Um universalismo que transpassa o âmbito geográfico.
O critério para Jesus é a fé e esta se manifesta pelo amor. Pela fé de um leproso com a palavra e o toque do Mestre acontece a cura (cf. Lc 5,12-16). A fé impulsionou o paralítico a buscar ajuda, não conseguindo aproximar-se de Jesus carregaram até o terraço e entraram através das telhas, vendo a fé dele, Jesus diz: “homem, teus pecados estão perdoados” (cf. Lc 5,20).
Chama um cobrador de impostos para segui-lo, Levi (cf. Lc 5,27-28), em seguida participa duma festa em sua casa e toma refeições com pecadores. Jesus rejeita a hipocrisia social, vence o legalismo e estabelece novos critérios e provoca rupturas (cf. Lc 5,27-39).  Jesus liberta da lei e prioriza a pessoa; a necessidade é o critério da administração dos bens (cf. Lc 6,1-5).
No discurso da planície, Jesus estava em oração, escolhe os doze apóstolos, em seguida desce onde se encontram “... numeroso grupo de discípulos e imensa multidão de pessoas de toda a Judéia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidônia. Tinham vindo para ouvi-lo e serem curados de suas doenças” (cf. Lc 6,17-19). A gratuidade nas relações: amor até para com os inimigos (cf. Lc 6,27-35). Misericordioso como o Pai do céu é misericordioso (cf. Lc 6,36-38). Acolhe a mulher conhecida como pecadora corrigindo a ideologia machista e conclui o diálogo afirmando: “Tua fé te salvou; vai em paz” (cf. Lc 7,36-50).

Rodrigo J. da Silva

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A pureza das crianças!

Estava conversando com um grupo de crianças, e comecei a refletir sobre a  realidade. Normalmente da boca dos adultos só ouvimos lamentações, desesperanças, etc... Mas quando escutamos as crianças, percebemos que encaram o mundo de um outro prisma, com os olhos cheios de esperança. As perguntas e as respostas dos pequeninos são permeadas de pureza, de encanto, e o amor salta ante seus olhos. O próprio Jesus diz: o Reino é daqueles que vivem como as crianças. Aí encontra-se o sentido da vida, e qual é o sentido? "Ser para os outros", ser puro de coração, saber perdoar, acolher a todos, conhecer seus limites, confiar  nos outros, etc... 
Na hora, lembrei da canção do poeta "Gonzaguinha".

"Ontem o menino que brincava me falou
Que hoje é semente do amanhã
Para não ter medo que esse tempo vai passar
Não se desespere não, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será".

O término da reflexão depende de você!

Rodrigo J. da Silva

Redes Sociais: pesquisas apontam que uso em excesso pode causar depressão


 "Uso excessivo de redes sociais pode causar depressão”. É o que afirma a pesquisa desenvolvida, em 2011, pela Academia Americana de Pediatria. O professor universitário W.Gabriel Oliveira, no entanto, alerta: "devemos destacar o termo excessivo”. Ele avalia que é necessário impor um limite, em especial entre adolescentes, mas que há benefícios nas redes sociais que também devem ser considerados, como a socialização e as mobilizações virtuais.

 Os pesquisadores responsáveis pelo estudo o denominaram de ‘Depressão Facebook’, a qual atinge, especialmente, adolescentes que ficam horas do dia navegando nas redes sociais. De acordo com a pesquisa, o uso sem moderação poderia acarretar atos de cyberbullying, ansiedade social e isolamento severo. Nesse sentido, é essencial que os pais acompanhem a vida virtual dos filhos.

Na avaliação de W.Gabriel, a forte adesão de adolescentes às redes sociais reflete características próprias da juventude, como formação da identidade, necessidade de socialização e auto-afirmação. Ele relembra que, em épocas diferentes, outros interesses aglutinavam a juventude e também requeriam limites por parte dos responsáveis. "Na minha época era o celular, através das promoções, os adolescentes passavam madrugadas ao telefone”, relata.

Para o professor, as redes sociais diferenciam-se de outras mídias, tendo em vista as inúmeras possibilidades de interação. "Texto, vídeo, imagem, comentários formam um bombardeio de percepções, que nos deixam dependentes. Quero saber se alguém falou comigo, qual a opinião do outro, se foi publicado algo relacionado a mim”, enumera. Ele avalia que as identidades são reforçadas por meio das redes sociais, a partir da imagem que se deseja passar.

Segundo a pesquisa, os jovens que desenvolvem depressão, já manifestam tendência ao isolamento ou ansiedade e buscam na internet uma forma de interagir com outras pessoas. Quando essa relação não se estabelece, eles ficam deprimidos. O trabalho alerta para que os pais avaliem se o período dedicado aos relacionamentos virtuais não estão interferindo na construção de relacionamentos reais.

Gabriel Oliveira cita algumas ferramentas que podem colaborar no controle dos responsáveis, como o bloqueio de sites. Outra medida, a qual requer acordos entre pais e filhos, é a definição de horários para uso da internet. Os pesquisadores orientam que os adolescentes devem ter uma vida equilibrada, com responsabilidades escolares, atividades extras e tempo livre para lazer, que pode ser utilizado também para uso da internet.

Em relação aos sites de redes sociais, por sua vez, algumas medidas de segurança são adotadas, embora possam "ser burladas”, conforme prevê o professor W.Gabriel. Uma delas é a idade mínima para acesso, em alguns casos é de 13 anos, em outros só é permitido o acesso com maioridade, 18 anos. Por meio da política de ética do site, também são proibidos conteúdos pejorativos, impróprios, pornografia, os quais podem ser denunciados pelos usuários. No entanto, com uma média de 750 milhões de usuários, tal controle ainda é deficiente.


Camila Maciel

Jornalista da Adital

terça-feira, 27 de setembro de 2011

SER PACIENTE

Durante as férias sentado à beira da praia conversando com um ancião, ele me disse: “a coisa mais linda do mundo é que um dia vem depois do outro. Nada como o tempo!”. Fiquei ruminando aquelas palavras e relacionando com a vida do ser humano pós-moderno. Com palavras simples revelou-me uma forma de viver, de encarar as situações limítrofes, as angustias, os sonhos, etc... Saber apreciar a beleza dum dia após outro, é ter consciência do significado que o tempo tem na cotidianidade. É saber que a paciência nos molda, e que o equilíbrio nas escolhas, nas respostas, muitas vezes vem do saber esperar. Por isso, a sabedoria é fruto da experiência de vida.
O ser humano pós-moderno devido ao imediatismo oferecido pela sociedade, vive um dos seus maiores dramas, a impaciência. Não sabe esperar! Muitas vezes a impaciência vem procedida de um discurso positivo, não perder tempo. Mas o intuito deste discurso é simplesmente para justificar a euforia exacerbada, não nos dando conta que estamos burlando a lei da paciência, da retidão, do equilíbrio, caindo na impulsividade.
 O amadurecimento é consequência dos anos, e estes, são nada mais e nada menos, do que um dia depois do outro. O ser humano por excelência foi Jesus Cristo. Quando estava junto de seus apóstolos tinha consciência de como a impulsividade era funesta.
Certo dia, estando Jesus a caminho de Jerusalém pediu aos discípulos que fossem preparar um local para repousarem, entraram num povoado de Samaritanos e estes não os receberam. Devido a rejeição, os discípulos tiveram um ímpeto de impulsividade: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los? Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram para outro povoado” (cf. Lc 19,51-56). Jesus ao repreender os discípulos nos revela a relevância da paciência.
A paciência fez Jesus entender o processo de maturação da fé dos Samaritanos, sabia que mais tarde, creriam Nele. A paciência dá possibilidade para a autonomia, ressaltando a liberdade. A paciência é corroborada à medida que as circunstâncias vão aparecendo, mas só há progressão se houver consciência. O texto de Lucas diz que após a repreensão Jesus partiu com eles para outro lugar. Isso significa que o processo de paciência não é inerte, é rotativo.
Sendo assim, tenhamos nós também consciência de nossas impulsividades, libertamo-nos delas, para que possamos chegar a uma verdadeira maturação. Nada mais belo do que um dia após outro. A natureza nos ensina a esperar!

Rodrigo J. da Silva

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A ARTE DE DESAPRENDER

Apresentou-se à porta do convento um médico interessado em tornar-se frade. O prior encarregou o mestre de noviços de atendê-lo.
― Caro doutor – disse o mestre – o prior envia-lhe esta lista de perguntas. Pede que tenha a bondade de respondê-las de acordo com os seus doutos conhecimentos.
O jovem médico, acomodado no parlatório, tratou de preencher o questionário. Em menos de uma hora devolveu-o ao mestre. Este levou o papel ao prior e retornou quinze minutos depois:
― O prior reconhece que o senhor demonstra grande conhecimento e erudição. Suas respostas são brilhantes. Por isso pede que retorne ao convento dentro de um ano.
O médico estampou uma expressão de desapontamento:
― Ora, se respondi corretamente todas as questões – objetou – por que retornar dentro de um ano? E se eu tivesse dado respostas equivocadas, o que teria sucedido?
 ― O senhor teria sido aceito imediatamente e, na próxima semana, já estaria entre os noviços.
 ― Então, por que devo retornar em um ano?
 ― É o prazo que o prior considera adequado para que o senhor possa desaprender conhecimentos inúteis.
 ― Desaprender? – surpreendeu-se o médico.
 ― Sim, desaprender. Entrar na vida espiritual é como empreender uma viagem: quanto mais pesada a bagagem, mais lentamente se cobre o percurso. Na sua há demasiadas coisas substantivamente inúteis.
 E o doutor partiu sob promessa de retornar dentro de um ano, o que de fato sucedeu.
 Assim como há escolas e cursos para aprender, deveria também existir para ensinar a desaprender. Quantas importantes inutilidades valorizamos na vida! Quantos detalhes sugam nossas preciosas energias e consomem vorazmente o nosso tempo! Quantas horas e dias perdemos com ocupações que em nada acrescentam às nossas vidas; pelo contrário, causam-nos enfado e nos sobrecarregam de preocupações.
Precisamos desaprender a considerar os bens da natureza produtos de uso próprio, ainda que o nosso uso perdulário se traduza em falta para muitos. Desaprender a valorizar um modelo de progresso que necessariamente não traz felicidade coletiva e uma economia cuja especulação supera a produção. Desaprender a olhar o mundo a partir do próprio umbigo, como se o diferente merecesse ser encarado com suspeita e preconceito.
O desaprendizado é uma arte para quem se propõe a mudar de vida. Nessa viagem, quanto menos bagagem e mais leveza, sobretudo de espírito, melhor e mais rápido se alcança o destino. Vida afora, carregamos demasiadas cobranças, mágoas, invejas e até ódios, como se toda essa tralha fizesse algum mal a outras pessoas que não a nós mesmos.
O que nos encanta nas crianças com menos de cinco anos é a interrogação incessante, o interesse pela novidade, o espírito despojado. Era isso que sinalizou Jesus quando alertou a Nicodemos ser preciso nascer de novo, sem retornar ao ventre materno, e tornar-se criança para ingressar no Reino de Deus.
O médico candidato a noviço comprovou ser bem informado, mas ignorava a distinção entre cultura e sabedoria. Soube elencar as mais célebres telas da pintura universal, sem, no entanto, ter noção do que significam e por que o artista fez isto e não aquilo. Conhecia todas as doenças de sua especialidade, sem a devida clareza de como se relacionar com o doente.
A humanidade não terá futuro promissor se não desaprender a promover guerras e a considerar a pobreza mero resultado da incapacidade individual. Urge desaprender a valorizar o supérfluo como necessário e a ostentação como sinal de êxito. Desaprender a perder tempo com o que não tem a menor importância e se dedicar mais nos cuidados do corpo que do espírito.
A vida espiritual é um contínuo desaprender de apegos e ambições, vaidades e presunções. A felicidade só conhece uma morada: o coração humano. Eis aí milhões de viciados em drogas a gritar a plenos pulmões terem plena consciência de que a felicidade resulta de uma experiência interior, de um novo estado de consciência. Como não aprenderam a abraçar a via do absoluto, enveredaram pela do absurdo.
E convém aprender: no amor mais se desaprende do que se aprende.

[Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros]

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Jesus, a pecadora pública e o fariseu

O objetivo deste artigo é saber, qual à atitude de Jesus diante de um fato concreto, onde a questão moral sexual está subjacente? E sua atitude, pode lançar luz sobre o modo como devemos hoje enfocar a moral sexual?
Texto bíblico escolhido para iluminar estes questionamentos é o de Lc 7, 36-50. O tema não é focado de maneira explícita no episódio, mas aparece como pano de fundo. Pecadora pública, supostamente prostituta.
O artigo está dividido em 5 partes: 1°- abordagem histórica, 2°- contexto literário, 3°- composição do texto Lc 7,36-50, 4°- mensagem, 5°- conclusão.

I – Contexto histórico
Lucas inicia a perícope com uma cena em que Jesus foi convidado para um banquete na casa de um fariseu. Logo no inicio (v36) diz que Jesus “reclinou-se à mesa”, denota um tratamento de honra em relação a Jesus, supostamente considerado o profeta esperado (v39). A entrada de uma mulher sem convite não era algo surpreendente num festim deste tipo, pois tinha um caráter mais ou menos público.
Surpreendente era a condição da mulher, e os gestos realizados por ela. A atitude de Jesus foi paradigmática em relação à pecadora. Vejamos a condição da mulher na sociedade vigente:
• Sociedade judaica: seres inferiores, vulneráveis e tentadoras (Gn3).
• Lei de Israel: mulher propriedade do pai ou do marido, subalterna ao homem.
• Não era sujeito nem pela esfera religiosa nem no direito civil
As mulheres ao saírem de casa traziam o rosto e a cabeça cobertos por véu. No texto quando ela tira o véu dá-se o escândalo, enxuga os pés de Jesus com os cabelos.
A inferioridade da mulher era marcada pela corporeidade. Pois bem, as classes que acompanharam Jesus em sua trajetória histórica foram: as prostitutas, os publicanos, e os pecadores.

II – Contexto literário
Na visão lucana a história da salvação divide-se em duas etapas: o Tempo da Promessa e o Tempo do Cumprimento ou Realização. O primeiro testamento constitui o Tempo da Promessa, e a realização se dá no tempo de Jesus e no Tempo da Igreja.
Lucas introduz a vida pública de Jesus no episódio da sinagoga em Nazaré (Lc 4,16-30). Ao ler o livro do profeta Isaías apresenta Jesus como Messias e traça o seu programa de vida, a síntese da sua missão. Vejamos a síntese literária deste capítulo:
• V. 1-10 – cura do servo do centurião, Jesus revela a misericórdia de Deus com os pagãos
• * V. 11-17 – ressurreição do filho da viúva de Naim, reaparece a misericórdia de Deus, atitude de Jesus – Elias.
• V. 18-23 – Jesus se revela como Messias aos discípulos de João Batista.
• V. 24-35 – Lc faz elogio a João e termina com uma interpelação: será que realmente é o Profeta esperado?
• * V. 36-50 – narração própria de Lucas.

III – Composição do texto Lc 7,36-50
Muitos exegetas afirmam que Lucas parte neste relato do episódio da unção de Betânia (Mc 14,3-9). Mas logo se afasta da fonte e compõe uma narrativa independente. (Artigo elementos semelhantes e divergentes) Em ambas as narrativas Jesus sai em defesa da mulher contra seus acusadores.
Estrutura do texto:
• V. 36-38 – colocação do problema: mulher pecadora (prostituta?), entra na casa e expressa sentimentos em relação a Jesus através de gestos. Jesus deixa-o agir – rompe patrões de comportamento.
• V. 39 – o raciocínio do fariseu se opõe a pecadora: mulher (= pecadora) toca Jesus (=profeta?). Expectativa:
pecado julgamento condenação expulsão
• V. 40-47 – argumentação de Jesus se dá em dois passos.
1º - V. 40-43 – Jesus retoma o argumento do fariseu com a parábola, esquematizada assim:
Dívida maior----- perdão maior----- amor maior
Subtendido:
Dívida menor------perdão menor------ amor menor
Jesus parte da noção de pecado – perdão – amor
2º V. 44-46 – começa descrevendo os gestos da mulher, expressões múltiplas de amor e gratidão, estrutura do raciocínio:
AMOR MAIOR------ PERDÃO MAIOR
AMOR MENOR ....
Jesus exorta a olhar de seus interlocutores aos pobres e pecadores, depois a si mesmos. Fariseu ilustre da cidade deve imitara a pecadora, ele assume passa a ser um discípulo seu.
• V. 47 – os gestos dela simbolizam que o perdão veio primeiro, ela demonstrou amor.
• V.48-49 – perdão e o espanto dos convivas, forma de caracterizar a boa nova
• V.50 – “tua fé te salvou”, refere-se a tradição batismal e a acolhida na comunidade dos seus

IV – A mensagem do texto
• O tema da misericórdia – com-paixão
• A com-paixão nas palavras de Jesus
• A com-paixão nos atos de Jesus
• A Sabedoria e a com-paixão em Lc 7,36-50

V – Conclusão
Que orientações podem ser tiradas deste texto para um possível avanço na moral sexual?
1° - O pecado de ordem sexual não é tratado dentro de uma especificidade à parte, levanta um questionamento com relação a rigidez da Igreja.
2° - Paoli observa, Jesus reconstrói a partir dos gestos da pecadora o significado de um relacionamento verdadeiro. Comportamento exigido dos seguidores de Jesus, partir daquilo que há de amoroso nos gestos.
3° - Entrar na dinâmica da gratuidade e do amor, renunciando a tentação da auto-suficiência e do domínio do sagrado. Fariseu pretendia ter o controle de Deus, a partir do controle da Lei e do Templo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA
CAVALCANTI, Tereza. Jesus, a pecadora pública e o fariseu. Estudos Bíblicos, 24, Petrópolis: Vozes, p.30-40, 1989. [Lc 7,36-50]
Rodrigo J. da Silva